Panorama N1: Ampliando a Cena - 2ª Edição
Agenda, lançamentos, notícias e a Resenha Panorama desta semana
Por Luiza Ferreira Ferraz
Publicado em 28/08/2026 17:10
Cultura
Foto: Colagem

Nesta última sexta-feira do mês agosto (28), o Panorama N1 chega à mais uma edição ampliando a cena cultural do Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte.  

O que antes acontecia ao vivo pela Rádio N1, agora também ganha as linhas das nossas publicações! Toda semana, novos trabalhos chegam aos palcos, às telas, às plataformas e aos espaços culturais. E aqui, esse movimento fica mais próximo do público. 

Entre informação, contexto e agenda, o Panorama aborda a programação cultural regional, lançamentos de música, cinema, streaming e teatro, e termina com uma experiência comentada na Resenha Panorama.

Panorama da Semana

A edição tem o seu pontapé com o Panorama da Semana, apresentando os acontecimentos de destaque dos últimos dias. 

GTA 6 transforma divulgação em acontecimento cultural

A Rockstar Games divulgou nesta quinta-feira (27) um novo material de “Grand Theft Auto VI”, um dos lançamentos mais aguardados da indústria dos games. Com cerca de 27 minutos, “An Extended Look” — ou “Um Olhar Estendido”, na versão brasileira —, é um vídeo que reúne imagens capturadas diretamente no PlayStation 5, apresentando novos momentos da história e do universo do jogo.

O “An Extended Look” foi exibido primeiro pela Netflix e, algumas horas depois, chegou ao canal oficial da Rockstar no YouTube e ao site de “GTA VI”. A escolha aproxima o lançamento de outras formas de entretenimento e mostra como um grande jogo pode ser apresentado como um acontecimento audiovisual por si só.

No novo capítulo da franquia, a história acompanha Jason Duval e Lucia Caminos, dois protagonistas envolvidos em uma conspiração criminosa que atravessa o fictício estado de Leonida. O cenário inclui uma nova versão de Vice City, cidade que já fazia parte da série e que agora aparece reconstruída para a nova geração de consoles.

O material divulgado pela Rockstar combina momentos narrativos com cenas que mostram diferentes possibilidades do jogo, incluindo perseguições, confrontos e atividades do cotidiano dos personagens. A apresentação também chamou atenção pelo aspecto cinematográfico, aproximando a experiência de uma produção audiovisual tradicional sem deixar de mostrar elementos da própria jogabilidade.

A repercussão foi imediata. A apresentação passou a ser acompanhada por análises, comentários e reações de fãs e criadores de conteúdo, que receberam autorização da Rockstar para transmitir o material e comentá-lo. A resposta ajuda a dimensionar o lugar que “GTA 6” ocupa hoje na cultura dos games: cada novo detalhe sobre o jogo se transforma em assunto para além do público que já acompanha a franquia.

Esse interesse também está relacionado ao tempo de espera. “GTA VI” chega em 19 de novembro para PlayStation 5 e Xbox Series X|S, mais de uma década depois de “GTA V”, lançado originalmente em 2013. A distância entre os dois capítulos ajuda a explicar por que a divulgação de um novo material da franquia se tornou, por si só, um acontecimento relevante no calendário do entretenimento.

Agenda Cultural

O fim de semana coloca diferentes espaços em movimento, com música, literatura, artes visuais e encontros que aproximam produção cultural, memória e identidade. No Vetor Norte e em Belo Horizonte, alguns dos destaques passam tanto por grandes eventos que ocupam a cidade quanto por iniciativas mais específicas, voltadas à circulação de outras vozes e expressões culturais.

Arte e ancestralidade no Vetor Norte

Em Pedro Leopoldo, o Instituto Terra Ancestral promove nesta sexta-feira uma noite de atividades culturais a partir das 18h. A programação reúne uma queima Raku de cerâmica, feira, bazar beneficente e uma atividade dedicada aos discos de vinil, além de alimentação e bebidas comercializadas por parceiros do espaço. A entrada é gratuita.

Virada Cultural ocupa Belo Horizonte durante 24 horas

Já no centro de Belo Horizonte, a programação ganha outra escala. A 11ª edição da Virada Cultural acontece neste sábado e domingo, 29 e 30 de agosto, com 24 horas de atividades gratuitas e mais de 200 atrações espalhadas pelo hipercentro.

Música, teatro, dança, circo, literatura, artes visuais e culturas urbanas fazem parte do circuito, que terá entre os nomes nacionais Alceu Valença e Jorge Aragão. Ao mesmo tempo, a edição aposta em mudanças na própria experiência do público: a Avenida Amazonas ganha um palco em 360 graus, dedicado principalmente ao samba, e o Parque Municipal volta a integrar o percurso de 24 horas.

Quem pretende atravessar a madrugada também encontra novidades na estrutura. As barracas de alimentação da Feira Hippie funcionarão durante toda a noite, enquanto o domingo terá tarifa zero nos ônibus municipais. Entre meia-noite e 3h59, o Madrugão contará com 128 linhas integradas ao Move.

Com atrações acontecendo simultaneamente em diferentes pontos, a Virada propõe que o público atravesse o centro para construir o próprio percurso — uma característica que aparece também no conceito desta edição, “Cidade em Movimento”.

Uma ponte musical entre Amapá e Minas Gerais

Outra possibilidade de encontro com uma produção cultural que costuma circular menos por Minas está no palco do Teatro do Minas Tênis Clube. Nesta sexta-feira, Amadeu Cavalcante, Osmar Júnior e Zé Miguel apresentam “Cancioneiros do Meio do Mundo, A Ponte Cultural do Amapá”, às 20h.

Os três artistas amapaenses reúnem no espetáculo canções construídas ao longo de mais de três décadas, atravessadas por paisagens, memórias, lendas, ancestralidade e pelo cotidiano amazônico. O projeto faz parte de uma turnê que passa por sete cidades brasileiras e chega a Belo Horizonte como sua segunda parada.

Além do show, o público poderá participar de uma roda de conversa sobre arte, música, cultura e identidade regional. A entrada é gratuita, mediante doação voluntária de um quilo de alimento não perecível.

Quem conta a história também entra em cena

Memória e autorrepresentação são o ponto de partida da segunda edição da Mostra Museu: “Escritas que vêm das bordas”, que acontece nesta sexta-feira no Centro Cultural São Bernardo.

A programação começa às 18h30, com uma visita guiada pela exposição que percorre diferentes momentos da literatura insurgente, da Geração Mimeógrafo aos saraus e Slams. Depois, às 19h30, os escritores Geovani Martins e PretoVivo participam de uma conversa sobre literatura, memória, identidade e transformação, com mediação de Joi Gonçalves.

Autor de “O sol na cabeça” e “Vila Ápia”, Geovani Martins representa uma produção literária que ganhou circulação para além das periferias cariocas. PretoVivo, por sua vez, traz a experiência da poesia falada e da cena de Slam em Minas Gerais.

A noite termina com o Slam de Quebrada, às 20h30. Toda a programação é gratuita.

Para dar zoom!

Desde o streaming ao teatro, entre outros lançamentos, o Panorama separou alguns títulos que estão chamando a atenção. 

Música

Na última quarta-feira (26), Carol Biazin lançou o “assumo os riscos”, um EP que marca o encerramento da sua era artística “No Escuro, Quem É Você?”. Neste projeto, a cantora experimenta novos elementos musicais, ao mesmo tempo em que relembra sons característicos do álbum principal – indicado na categoria de Melhor álbum Pop Contemporâneo em Português no Grammy Latino no último ano.   

Entre declarações de amor, solos e poesia, as seis faixas do projeto revelam paixão e sinceridade com toda a autenticidade que a artista carrega em suas melodias e letras. O projeto também trabalha a faceta audiovisual com o clipe da música “bh”, lançado nesta quinta-feira (27) e já disponível no Youtube. 

Jennie, do BLACKPINK, chega às plataformas nesta sexta-feira (28) com “Fallen Angel”, seu segundo lançamento solo de maior fôlego. O EP reúne três músicas e dá continuidade ao trabalho iniciado com “Ruby”, primeiro álbum individual da cantora, lançado em 2025. Entre as faixas estão a própria “Fallen Angel”, “Heaven” e “Less Than a Lover”.

A canção que dá nome ao projeto também ganhou um videoclipe. Nele, a artista aparece em uma narrativa de atmosfera fantástica e sombria, que mistura referências de contos de fadas, imagens surreais e efeitos digitais. 

No Brasil, Pabllo Vittar se une novamente a Urias em “Body Type”, segundo single do próximo álbum da cantora, “LOST IN LUST”. A faixa é a terceira colaboração entre as duas artistas e conta com produção de Gorfo de Panda, conhecido por trabalhos ligados ao funk underground.

Cinema

As estreias desta semana renovam os cartazes dos cinemas brasileiros com histórias que passam pela animação, pelo suspense, pela comédia, pelo romance e pelo drama. Entre os lançamentos que chegaram às salas na quinta-feira (27), estão produções internacionais e um novo longa-metragem brasileiro.

“Coyote vs. ACME”, dirigido por Dave Green, leva para o cinema um dos personagens mais conhecidos dos Looney Tunes. Depois de anos tentando capturar o Papa-Léguas com os produtos da ACME, o Coiote decide responsabilizar a própria empresa por seus fracassos e parte para uma disputa contra a corporação.

Em “Ponto Sem Retorno”, Ridley Scott volta ao cinema de ficção científica para adaptar o romance “The Dog Stars”, de Peter Heller. A história se passa em um mundo devastado por uma pandemia que eliminou grande parte da humanidade, acompanhando sobreviventes que precisam lidar tanto com a escassez quanto com as ameaças de um cenário pós-apocalíptico.

A comédia romântica aparece em “Só por Uma Noite”, de Will Gluck, com Monica Barbaro, Callum Turner e Maya Hawke. O filme parte de uma noite que deveria ser apenas um encontro passageiro, mas acaba colocando os personagens diante de situações capazes de alterar o rumo de suas relações.

O humor ganha outra abordagem em “Muito Prazer”, novo filme de Jorge Furtado. Daniel de Oliveira interpreta Rubem, que tenta aumentar os lucros do motel herdado do tio vendendo vídeos íntimos de clientes. Quando o plano dá errado, ele precisa encontrar maneiras cada vez mais inusitadas de escapar das consequências.

Entre as produções brasileiras, “Nosso Segredo” é o novo longa dirigido por Grace Passô. O drama acompanha uma família negra depois de uma perda recente, enquanto o segredo guardado pelo filho mais novo altera a maneira como os familiares compreendem a ausência que passou a fazer parte do cotidiano.

Streaming

Nos streamings, a semana reúne produções de diferentes países e gêneros, entre dramas, suspenses, comédias e reality shows. Entre os lançamentos, há histórias que chegam ao público pela primeira vez e novas temporadas de produções que já têm espaço nos catálogos.

No Prime Video, dois filmes chegam com destaque nesta semana. “O Último Nascer do Sol”, lançado na quarta-feira (26), acompanha Ry, uma estudante universitária que viaja com a mãe para Maiorca, na Espanha, onde se apaixona por Julián enquanto enfrenta o agravamento de uma doença crônica e segredos familiares. O drama romântico é uma produção norte-americana.

Também entrou no catálogo “A História do Som”, coprodução entre Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e Itália. Ambientado durante a Primeira Guerra Mundial, o filme acompanha dois jovens que percorrem comunidades norte-americanas para registrar vozes e músicas de seus compatriotas. A experiência aproxima os dois e transforma o trabalho em uma história de amizade, romance e memória.

Na Disney+, uma das novidades é “Gutiérrez Contra o Crime”, série argentina protagonizada por Darío Barassi e Yayo. A trama acompanha um policial pouco preparado que recebe a missão de investigar o assassinato do embaixador russo na Argentina. Quando a CIA assume o caso, ele decide seguir sua própria investigação, ao lado de uma equipe tão leal quanto atrapalhada.

A plataforma também lançou o especial de animação “Yellow Mirror: A Realidade Paralela de Homer”, que coloca os personagens de “Os Simpsons” diante de duas histórias que misturam humor e elementos de ficção científica.

Na Netflix, a semana traz lançamentos em diferentes formatos. Entre eles está “Sua Mãe Te Conhece?”, reality show brasileiro em que nove mães colocam à prova o quanto conhecem seus próprios filhos em uma disputa que envolve dinheiro e escolhas inesperadas.

A música também aparece em “Ritmo + Flow: França”, competição francesa dedicada ao rap. Os participantes disputam um prêmio de 100 mil euros diante dos jurados Theodora, Oli e SDM.

Outro lançamento da Netflix é “A Mulher Secreta”, drama dinamarquês sobre uma mulher com amnésia que descobre ter uma família e um império de navegação. Ao retornar para uma vida que parece perfeita, ela começa a investigar as razões que a fizeram abandoná-la.

E, entre as séries, “O Rato”, um suspense sul-coreano, acompanha três homens ligados de maneiras diferentes à figura misteriosa conhecida como “O Rato”: um escritor que teve sua identidade roubada, um agiota tentando recuperar dinheiro perdido e um detetive que busca descobrir quem está por trás do nome.

Na HBO Max, a novidade da semana é “Saudades, Te Amo”, produção norte-americana que mistura drama e humor ácido. O filme acompanha Diane, uma viúva que precisa organizar o funeral do marido ao lado de Jamie, assistente pessoal do filho que ela mal conhece. A convivência entre os dois transforma os preparativos em uma oportunidade inesperada para lidar com luto, arrependimentos e a dificuldade de seguir em frente.

Resenha Panorama

Nesta sessão, experiências culturais são transformadas em uma análise que combina contexto, percepção e leitura crítica da obra. A cada edição, a proposta é olhar para uma produção a partir do que ela apresenta, das escolhas que faz e das questões que provoca. 

O Resenha Panorama desta edição olha para dois filmes que, embora tenham chegado aos cinemas separadamente, formam uma única história: “Kill Bill: Volume 1”, lançado em 2003, e “Kill Bill: Volume 2”, de 2004. Os dois são dirigidos e roteirizados por Quentin Tarantino e protagonizados por Uma Thurman, que interpreta Beatrix Kiddo, a personagem conhecida como A Noiva. A fotografia é de Robert Richardson e a montagem, de Sally Menke — colaboradores frequentes de Tarantino. No primeiro volume, o elenco também reúne Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, Michael Madsen e David Carradine; no segundo, além de Thurman, Carradine, Madsen e Hannah, Gordon Liu ganha destaque como Pai Mei.

A história começa com Beatrix Kiddo deixada à beira da morte depois de um ataque que destrói seu casamento e interrompe sua vida. Quatro anos depois, ela acorda do coma e parte em busca das pessoas responsáveis. A partir daí, os dois filmes acompanham sua vingança contra antigos companheiros e, principalmente, contra Bill.

Mesmo que a franquia tenha sido lançada há vinte anos, fica aqui o aviso que preserva a experiência do leitor: a resenha a seguir contém spoilers.

Volume 1: experimenta sem pedir licença

“Kill Bill: Volume 1” é daqueles filmes que parecem não precisar pedir licença para existir. Ele apresenta suas referências, seus exageros e suas escolhas estéticas com uma segurança que faz tudo parecer absolutamente natural dentro daquele universo.

A primeira impressão é justamente visual e sonora. A montagem, os efeitos de som e a fotografia trabalham juntos para transformar cada sequência em alguma coisa muito própria. As cores mudam de acordo com os momentos, os enquadramentos assumem diferentes referências e a narrativa passa pela ação, pelo cinema de artes marciais, pelo western e até pela animação.

O capítulo em anime que conta parte da história de O-Ren Ishii é talvez o exemplo mais evidente dessa liberdade. Em vez de simplesmente contar aquela passagem de maneira convencional, Tarantino muda completamente a linguagem e transforma a lembrança em uma sequência animada. A escolha poderia parecer gratuita em outro filme, mas aqui funciona justamente porque “Kill Bill” parece construído sobre a ideia de que qualquer linguagem pode entrar em cena se ajudar a contar aquela história.

E isso, sem dúvida, impressiona: o filme não parece preocupado em explicar por que ele pode fazer aquilo. Ele simplesmente faz.

Até as lutas seguem essa lógica. Algumas são longas — talvez mais do que precisariam ser —, mas existe uma espécie de licença poética que sustenta o exagero. E, quando a ação é bem construída, a duração deixa de ser necessariamente um problema. A sequência na Casa da Folha, por exemplo, transforma uma luta em espetáculo, coreografia e construção de personagem ao mesmo tempo.

No centro de tudo está Beatrix. A personagem atravessa ferimentos, obstáculos e uma quantidade absurda de adversários com uma determinação que rapidamente faz a gente aceitar que ela será capaz de chegar até o fim. E é justamente essa confiança que faz a violência do filme funcionar dentro de sua própria lógica: não estamos diante de uma personagem tentando descobrir se consegue se vingar. Estamos acompanhando alguém que já decidiu que vai conseguir.

Volume 2: como chegamos até aqui

Se o primeiro volume trabalha muito mais pela sensação, pelo impacto e pelo movimento, “Kill Bill: Volume 2” desacelera para explicar.

Aqui, a história volta ao passado, apresenta melhor as relações entre os personagens e permite que Beatrix seja vista não apenas como uma máquina de vingança. Descobrimos mais sobre sua formação, sobre Bill e sobre as razões que fizeram aquela história chegar até ali.

Essa mudança também aparece na estética. A fotografia continua muito marcada, mas o segundo filme é menos experimental do que o primeiro. Há mais espaço para paisagens, diálogos e longas cenas de confronto. O deserto, em especial, traz uma atmosfera que lembra o jogo “GTA”: aquela sensação de estrada, isolamento e grandes espaços atravessados por personagens que parecem estar sempre a caminho de alguma coisa.

O ritmo, porém, nem sempre acompanha essa força. O filme é um pouco mais arrastado em alguns momentos, especialmente quando se afasta da perseguição principal. Mas basta Beatrix voltar a agir para a narrativa recuperar o impulso.

E é impossível falar do segundo volume sem falar de Pai Mei. O treinamento com o mestre interpretado por Gordon Liu acrescenta uma nova dimensão à personagem e ajuda a explicar algumas das habilidades que ela demonstra depois. É uma relação que mistura disciplina, crueldade e humor e que, ao mesmo tempo, reforça uma das características mais interessantes de Beatrix: ela está sempre aprendendo alguma coisa que vai precisar usar mais adiante.

A Noiva é o centro de tudo

Os dois filmes funcionam porque Beatrix é maior do que a própria história de vingança. Ela é, de certa forma, o próprio filme.

Ela é exagerada, habilidosa, resistente e quase impossível de deter. A narrativa cria situações cada vez mais absurdas e, ainda assim, consegue fazer com que a gente acredite que ela vai encontrar uma saída. Não porque o roteiro precise justificar cada capacidade, mas porque a personagem foi construída para ocupar esse lugar.

E existe uma mudança importante quando descobrimos que ela é mãe. A maternidade desloca a história. Beatrix não está apenas tentando recuperar uma vida que lhe foi tirada; existe também uma relação com a filha que muda o significado de tudo o que aconteceu. Depois de assistir ao filme “Carol (2015)” pouco antes de Kill Bill, foi impossível não traçar paralelos entre as obras e perceber como esse aspecto da personagem também pode ser lido a partir da experiência de uma mulher tentando construir — ou recuperar — uma vida para além das expectativas que colocaram sobre ela.

Por isso, o conflito com Bill também não termina sendo tão simples quanto uma vingança convencional. O segundo filme tenta humanizá-lo, apresenta suas motivações e dá espaço para que ele fale sobre o que sente por Beatrix.

O filme pode até tenta aproximar o espectador de Bill, mas existe uma diferença entre compreender um personagem e passar a simpatizar com ele. Depois de tudo o que acontece com Beatrix, essa aproximação encontra um limite bastante claro.

Dois filmes, uma experiência

Assistidos juntos, os dois volumes ficam ainda mais interessantes justamente porque não tentam fazer a mesma coisa.

“Kill Bill: Volume 1” é mais explosivo, visual e experimental. É cor, montagem, som, luta e movimento. “Volume 2” reduz a velocidade, abre espaço para os personagens e transforma a vingança em uma história sobre memória, treinamento, maternidade e relações que ficaram mal resolvidas.

É essa diferença que faz os dois funcionarem como uma obra única. O primeiro constrói a lenda de Beatrix Kiddo. O segundo explica de onde ela veio e, principalmente, o que existe por trás daquela personagem que parece capaz de fazer qualquer coisa.

Mais de vinte anos depois de seu lançamento, a franquia “Kill Bill” é considerada um clássico (e já praticamente nasceu sendo um) e continua tão marcante quanto na época. Não é apenas a história de uma mulher que quer matar Bill. É um filme que transforma referências, gêneros e estilos diferentes em uma linguagem própria — e faz tudo isso com uma confiança que permite que, em muitos momentos, a gente simplesmente aceite o absurdo e acompanhe.

Por Luiza Ferraz

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